a filha da lavadeira

Olhando as águas que vencem a resistência das pedras, infiltrando-se nas frinchas rochosas, a correnteza conduz o olhar do observador aos locais de remanso, onde as pedras — generosas — quase que formam pequenos tanques nos quais as lavadeiras vêm tirar o seu sustento nas águas do Rio Vermelho.

Quantas mulheres da Cidade de Goiás não recorreram às águas samaritanas do Rio Vermelho para tirar sustento para a família, depois que o marido migrou, em busca de sonhos; arranjou outra família, esquecendo a primeira; ou amasiou-se com a cachaça, entregando-se totalmente aos seus caprichos?

Lavadeiras de Goiás Velho, mulheres-água. A lavadeira traz consigo a aura da penitência. Cumprem sina. Desafiam as dificuldades, os preconceitos, a carestia, os abandonos. Falta tudo à lavadeira, menos uma palavra bendita na boca, um “Deus abençoe!”, um “Deus lhe pague!”, e um “Bom dia!”, que vencem as trevas do pessimismo.

Balbina é filha de lavadeira. O pai arranjou outra em Pirenópolis. Partiu sem ao menos um adeus. Não deixou nem um centavo para o pão dos quatro filhos. A mãe revirou o céu e a terra por uma semana. Depois chegou a notícia de que o marido estava amancebado com uma viúva de posses. Entendeu o abandono e procurou trabalho para sustentar os filhos. Lavadeira: era só ter uma bacia, pedras de sabão e força nos braços, porque a água o Rio Vermelho dava de graça. E graças ao Rio Vermelho, os filhos da lavadeira tinham um pouquinho do de comer.

Vida de filha de lavadeira não é brincadeira! Balbina é a mais velha. É dela a responsabilidade sobre os mais novos. Quando a mãe não pode, não tem tempo; é ela quem busca as enormes trouxas de roupa na casa das freguesas. São trouxas enormes, quase do mesmo peso de Balbina. Ela parece aquelas formigas carregadeiras que transportam folhas muito maiores do que elas mesmas. Quando o pai saiu de casa, Balbina abandonou os estudos. Como conciliar tanto trabalho com os estudos? Não dava! Mas os irmãos menores continuavam na escola na esperança de terem um futuro menos pedregoso.

Muitos homens desocupados assobiavam ao ver Balbina, que entrava na flor da adolescência. Tinha gente que queria bicar daquela carnezinha magra, desnutrida, sempre com um leve tremor de fomes superpostas. A menina tinha medo deles, de que fizessem mal a ela. A infância ainda morava em sua mente, embora as curvas do quadril e as mamas que afloravam sob o vestido de chita barata denunciassem que ela estava ficando pronta para ser mulher.

A mãe de Balbina transfigurou-se em viúva de marido vivo. Só tinha força para o trabalho. A risada morreu em seus lábios. A juventude abandonou-a precocemente. Rugas e cãs vieram alugar-lhe o corpo. A espinha dorsal curvou-se ao peso das dificuldades. Sem tratamento, os dentes se foram, como vai a espuma nas águas do Rio Vermelho. Balbina sentia dó da mãe. Era um retrato vivo do sacrifício. Era uma mulher sem férias, sem embelezamento, sem libido. A mãe era como o esterco da horta que se entrega para dar viço às hortaliças, filosofava Balbina.

O Rio Vermelho foi testemunha do início do ciclo menstrual de Balbina. Ela lavava uns lençóis para a mãe, quando sentiu o fluxo descer. Urina não podia ser, o que seria aquilo? Ela subiu um pouco a saia, até à altura das coxas. O sangue vivo descia… O desespero cresceu, dando vida a mil pesadelos. O filete descia escarlate, manchando as águas, unindo-se às águas sagradas do Rio Vermelho. Seria doença? Seria castigo divino por algum pecado involuntário? Enquanto o fluxo vertia serpenteando as coxas, as lágrimas saltavam de seus olhos para unirem-se ao sangue e à correnteza.

Os lençóis brancos seguiram a procissão das águas. Balbina os viu serem arrastados por entre as pedras do rio. Que se fossem! A menina lembrava-se das Dez Pragas do Egito, de quando as águas do Egito viraram sangue. Em sua imaginação, as águas sadias de todo o Goiás também iriam se converter em sangue. Em disparada, voltou para casa, indo buscar asilo no colo quente da mãe, que passava as roupas com um pesado ferro à brasa.

Ao ouvir os desesperos da filha, a mulher sorriu com ternura. Pediu para os mais novos irem brincar no quintal e sentou-se com a menina, contou-lhe a sina das mulheres. Narrou a história de Eva, da tentação da serpente, da queda da humanidade e, consequentemente, do ciclo menstrual e do parto com dores. Explicou — delicadamente — para a filha, que a fenda que as mulheres têm entre as pernas é a cova onde o homem deposita a semente. E que para depositar a semente, o homem utiliza um membro que eles carregam entre as pernas; que esse membro, quando endurecido, fertilizava as mulheres e brotavam os bebês na barriga das mães.

A história da mãe demorou a ser assimilada pela menina, mas fazia sentido. Agora que ela já era mulher, tomaria muito mais cuidado com os homens que a espreitavam. Entendia, enfim, porque eles assobiavam, faziam gracejos e falavam sandices…

Balbina e a mãe foram obrigadas a lavar roupa de graça por três longos meses para a dona dos lençóis que se foram com as águas do rio. Mas a mãe achou até graça do ocorrido. Desde então, as duas ficaram mais unidas, mais irmanadas para as lutas da vida; porque uma mulher tem que saber ser arrimo para outra mulher.

Antonio da Silva Pereira Neto (1970, Poá, São Paulo) é professor de Língua Portuguesa, em Santa Maria de Jetibá. Este conto foi publicado em Coletânea de Poemas e Contos do Prêmio Flor do Ipê (UFG — Campus Catalão). Bloga em https://antoniopneto.wordpress.com/