até que a morte os separe

Cláudio chega arrastando os olhos pelo chão. Sequer quando abre a porta do restaurante eles se opõem à gravidade. Carrega sobre as pálpebras anos de frustração. Na língua, as palavras deitadas pela covardia conferem um sabor sórdido às possibilidades não cultivadas. Por que demorei tanto? Ele precisa de uma resposta para alvejar a boca. Porém as respostas claras não existem na natureza, são construídas por mentes que necessitam de algo estável. O acre da boca se intensifica quando pensa que a estabilidade da ponte entre Clarice e ele era apenas aparente. Por não atravessá-la com frequência, só via a regularidade do pavimento; não percebia a estrutura se corroendo sob os gestos e sorrisos complacentes.

Os primeiros tempos de casamento não deixaram a expectativa acima dos fatos. Mas não demorou muito, as cores começaram a desbotar e, quando ele tentou colorir o relacionamento, faltaram-lhe os dotes de artista. Fez um borrão que foi se extenuando até restar uma camada praticamente imperceptível que, de certo modo, sustentou o laço fraterno entre eles. Era avesso a traições, respeitava Clarice. E estava seguro da reciprocidade desse sentimento. Só não foi capaz de sentir que para o amor sobreviver é preciso uma dose mínima de desrespeito.

Quinta-feira, como se cumprisse uma obrigação herdada, ele estava sobre a esposa. Copiaria os mesmos movimentos das semanas anteriores se não sentisse o peito umedecer e ouvisse a voz entrecortada, o que estamos fazendo, Cláudio? Ele também começou a chorar. Os dois rostos se colaram e misturaram-se as lágrimas de anos. Na manhã seguinte, ele não acordou em sua cama. Antes de sair, insistiu para que se encontrassem dali uma semana, onde tudo começou. Com um gesto emprestado, Clarice moveu lentamente a cabeça para cima e para baixo.

Cláudio sabe onde a esposa está sentada. No entanto não é por isso que não ergue os olhos; é porque sente medo de vê-la segura, asco de encontrá-la sustentada por si. Em verdade, sente-se como o suicida minutos antes de apertar o gatilho. A iminência da perda, mesmo daquilo que ele acredita abdicar, faz transbordar no peito uma sensação escura, espalhando o instinto de conservação por todo o organismo: as mãos estão molhadas, a boca seca, as orelhas quentes e os calafrios sobem e descem pela coluna.

Quando, enfim, levanta a cabeça, as narinas se expandem. Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente, criação de um artífice desatento que colocara naquele salão sombrio uma escultura delicada. Os olhos dela escondem-se e mostram-se conforme o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel. A pele branca, que não se curvou ao tempo, exala maciez e um sabor de futuro chega aos lábios do homem. Clarice não parece a mulher que na semana anterior repugnara-o na cama, mas a menina que estivera sentada ali dezessete anos antes.

Talvez por isso as pernas de Cláudio não se entendam entre si. Há somente cinco mesas ocupadas, contudo é como se o restaurante estivesse cheio de olhos voltados para ele. O homem não está preparado para conversar com uma menina, muito menos com a sua menina.

A cada passo, Cláudio tenta pinçar os fatos que poderiam salvar o relacionamento; refaz o percurso até chegar à tarde de primavera em que vira Clarice pela primeira vez, naquela mesma mesa. Mas não consegue preencher os pensamentos e o vazio é invadido por um homem que acaricia as mãos da sua esposa. Um homem que olha nos olhos dela e para quem Clarice consegue sorrir com algo mais do que a boca. Cláudio agita as mãos como a criança que se recusa a compartilhar o brinquedo que desaprendera a usar. Clarice é minha. Só minha, ouviu bem?

A ideia da esposa com outro o carrega para o banheiro. O que devo dizer? O discurso ensaiado não parece verossímil. Molha a testa como se pudesse inchar os pensamentos com persuasão, entretanto, diferentemente dos seus anseios, a água traz a imagem de um velho nu, deitado em posição fetal no centro da cama redonda. Só há a cama branca no quarto enorme. Ele invoca o nome de Clarice, atravessa as madrugadas por gritá-la até as costelas engolirem o abdômen, mas só ouve o eco da própria voz. Entra no banheiro um senhor que cumprimenta Cláudio com um movimento de cabeça. Ele retribui o sinal. O velho começa a gesticular, emitir grunhidos e apontar para a saída. Cláudio se desespera, foge do mudo e encosta sem ar na porta. Porém, não pode escapar da certeza de que nada do que falar para Clarice mudará o que está decidido. Uma decisão que vem sendo enrijecida ao longo dos últimos anos e que palavra alguma terá o poder de perfurar. É tarde demais: a aproximação da verdade traz o negrume aos seus olhos.

Como se chegasse ao matadouro, Cláudio se aproxima da mesa. Adormecida dentro de si, Clarice continua girando o canudo enfiado no suco de morango não sorvido, mesmo enquanto ele se senta. Um silêncio rígido perdura por longos segundos até que ele pede uma cerveja ao garçom, que prontamente o atende. A cerveja desce agarrada à garganta como se não quisesse fazer parte daquele corpo vencido. Os olhos de Cláudio percorrem o restaurante: o que vê não se assemelha ao conteúdo entalhado na memória. Tudo agora é áspero demais, esnobe demais. Ele, então, fixa a vista em Clarice como se desejasse prender aquele instante na superfície dos olhos, ciente que nunca mais ele seria seu. Procura em si palavras não nascidas, revira o vocabulário, mas nada de substancial desce à língua.

— As paredes não eram assim tão escuras…

— Acho que não.

Trocam ainda umas frases sem tonalidade. Cláudio se dá conta do que Clarice sabia antes de se sentar ali: as palavras são desnecessárias nos velórios. Ainda mais nos velórios tardios.

Matheus Arcaro (1984) é professor de Filosofia, artista plástico e escritor com dois livros publicados: Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016). Tem textos no Mallarmargens e na Germina. Além disso, é colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiterturaBr.