você precisa dizer

Você sabe o que eu quero dizer, quando a terceira guerra estourou eu brincava no parquinho do condomínio, papai veio correndo e disse “filha, vamos pra casa, algo terrível aconteceu”. Pensei que fosse alguma coisa com a mamãe e hoje fico zangada com papai, não muito, agora que sei, ele estava dentro de um pesadelo, todo mundo estava, eu só não sabia ainda, porque eu era criança. Não foi um pesadelo, aconteceu mesmo, e nem foi uma guerra de ideologia, direita contra esquerda, foi uma forma bem suja de limpar o planeta. As bombas, os vírus, os cogumelos reluzentes. “Quem apagou a luz?”, perguntei, entredentes trincados pelo horror. Mamãe me abraçando. Papai dizendo que a humanidade era caso de psiquiatria e eu na época nem entendi. “Homem que é homem luta até o fim”, falava ele. E todo dia às três da tarde trancava a gente no porão e saía pra buscar mantimentos. Voltava horas depois com comida e alguns cigarros e chamava mamãe de minha pequena e enquanto eu fingia dormir eles faziam coisas estranhas debaixo dos lençóis. Eu comia feijão de lata frio e esse era um dia normal. Mamãe dizia pro papai “e agora quem pode chamar a gente de comunista?” E papai só respondia que era melhor que eles brincassem de Adão e Eva. Mamãe ria e o chamava de louco dentro daquele porão escuro e abafado que a gente então vivia. “Sabe, filha, outro dia passei por um estacionamento e vi um velho Cadillac, igualzinho ao que o seu avô teve um dia. Quando a guerra acabar levo você e sua mãe pra passear.” Bem, agora que o tempo passou e cresci, eu sou a garota deitada no divã do psiquiatra. E você me diz que não foi assim que tudo aconteceu e que eu sei. Sim, eu sei. Não existiu guerra alguma. E você me diz que eu tenho o direito de ficar zangada com o meu pai, que eu devo ficar zangada, mas pelos motivos certos. E eu sei disso também. Você me diz “vamos, Ana Beatriz, você precisa dizer”. Sim, eu sei, doutor. Eu sei. Papai deu um tiro de espingarda na cabeça, quando vieram tirar eu e mamãe do cativeiro. Só que eu ainda encontro papai, pois tenho muita saudade dele, e assim eu deixo que ele venha me visitar em meus sonhos. Eu sei que ele era mau, mas ninguém pode ser completamente mau o tempo todo.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.