antropofágico

Eu estava preso pela pele a um gancho de aço, pendurado num cano de metal que atravessava o ambiente de fora a fora. Eu estava nu e atrás de mim havia outro pendurado e atrás do outro havia mais outro e atrás daquele outro, outro e outro. Meu corpo todo doía. Mexia os olhos e via ao meu redor o que identifiquei como sendo o interior de uma espécie de caminhão frigorífico. Tomava muito cuidado para não sacudir o corpo que tinha a pele como que se desprendendo da carne, se rasgando lenta e silenciosa. Estava vivo ainda, sentia o curso do sangue nas veias. Quando o caminhão rodava de um lugar a outro e meu corpo balançava, a dor era terrível. E sempre novos corpos eram nele depositados. A cada parada pelo menos um novo corpo era trazido para dentro. Com o passar do tempo minha pele ia ressecando e os membros paralisando. Os novos corpos iam sendo colocados à frente. De vez em quando um deles entrava no frigorífico e tirava uma lasca de carne do corpo que pela ordem sempre era o de trás. Quando este já estava quase só ossos, excetuando-se a parte posterior do pescoço, por onde éramos pendurados, aí, então, passavam a descarnar o próximo. Não sei se comiam a carne ou se davam de alimentar a algum bicho. Logo seria minha vez. Já estava bem no fundo do caminhão. De olhos fechados rezava para morrer congelado antes de começar a ser destrinchado.

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados.