a publicação

Sentia-se fraca de tanto tossir. Sobrecarregados, os pulmões faziam o peito arder. Entre uma tossida e outra, era como se o ar que sugava do ambiente lhe enchesse a cabeça de ideias. Lola conseguiu dar conta de tamanho transbordamento ao transferir as ideias para o papel. Encheu duas folhas, revisou o texto e deixou escapar um longo suspiro, algo entre alívio e orgulho. De tão satisfeita, levou os escritos até o pai. Depois de passar os olhos pelas letras miudinhas da filha, o pai disse que leria com calma assim que lhe sobrasse tempo. Lola viveu uma semana de ansiedade. Sempre que o pai lhe chamava, acendia nela a expectativa de ganhar elogios. Mas o pai sempre lhe dizia coisas que nada faziam referência ao texto. Pois então chegou o dia em que Lola não se conteve.

“Pai, por acaso o senhor leu o que eu escrevi?”

O pai não respondeu de imediato. Entre vasculhar na memória sobre o que se tratava e elaborar os termos da resposta, passaram-se intermináveis dez segundos.

“Claro minha filha, sua redação é a coisa mais linda…”

Lola retirou-se devagar, parou, virou-se e retornou para próximo do pai.

“Pai, o senhor acha que ficou muito dramático? O padre deveria sobreviver no final?”

Novamente o pai demorou a responder:

“Não, minha filha, está perfeito assim, tudo está na medida certa.”

Nenhum padre fazia parte da história escrita por Lola. Ali, parada junto ao pai, Lola aprendeu o quão de tolice há em perseguir elogios.

Quanto mais se prolongavam as crises de tosse, mais as ideias continuavam a borbulhar, e assim mais papéis eram preenchidos pela caneta inquieta de Lola. Certo dia, quando se encaminhava para a escola, Lola deu forma a um plano. De dentro da mochila, retirou duas folhas de papel e um rolo de fita adesiva. Em pouco tempo, o texto de Lola estava pregado no tapume dentro do qual crescia o esqueleto de um prédio. No dia seguinte, Lola voltou ao mesmo lugar, não encontrando o texto deixado exposto. Olhou para baixo e reconheceu sua letra num pedaço de papel rasgado que o vento fazia saltitar pelo chão. Lola não se importou, afinal tinha na mochila outro texto para tornar público.

Todos os dias, a dona da loja de lâmpadas tinha pela frente, do outro lado da rua, a visão de uma garota magricela, magra a tal ponto de ser engolida pelo uniforme da escola. Era intrigante observar aquela garota, na ponta dos pés tão frágeis, a querer deixar alinhados os papéis que pregava no tapume. Já não havia jeito de resistir à curiosidade. Depois da primeira vez em que, mesmo em dia de muitas vendas, abandonou a loja e atravessou a rua, pondo-se a ler o conteúdo dos papéis preenchidos com letrinha tortuosa de criança, a dona da loja de lâmpadas passou a acompanhar todas as publicações. Numa ocasião, após ter terminado a leitura e enquanto retornava à loja, percebeu a árvore em cujo tronco estava pregado um papel. Olhou mais além e notou papéis pregados no muro de uma casa, nas cercas de um prédio, na superfície cilíndrica dos postes, na base do semáforo. Os papéis com letrinhas tortas haviam se espalhado pelo bairro inteiro. A dona da loja de lâmpadas sentiu-se obrigada a preservar todos os papéis, tinha medo que a intempérie apagasse para sempre todas aquelas ideias. Dali em diante, passou a recolher um a um. Se juntados um sobre o outro, formariam pilha de grande altura.

Fazia muito tempo sem que a garota renovasse suas publicações. Era um sumiço que perturbava a dona da loja de lâmpadas. Já foram muitas as rondas pelas cercanias e nem sequer um papel à mostra. Talvez as férias, talvez um período de bloqueio criativo. Mas o tempo foi se estendendo, e a dona da loja de lâmpadas não se contentava mais com especulações. Alguma coisa lhe fazia querer tomar atitude. Sabia exatamente qual escola deveria ser destino de sua investigação.

Em vez de brincadeiras, de correrias e de gritos agudos, havia silêncio e susto. As crianças recebiam lição de como era ter que lidar com a morte. O velório de Lola aconteceu numa manhã de vento afável. O sol azul-claro e o calor ameno inspiravam a afinada orquestra de pardais, trilha sonora da precocidade. De repente, todos os presentes na cerimônia se viraram para a direção de onde havia aparecido a mulher de sacolas abarrotadas. A dona da loja de lâmpadas retirou das sacolas os muitos livros que passou a distribuir. Todos receberam o livro em cujas páginas estava impressa a coletânea de histórias que Lola havia escrito. A cada um que estendia as mãos era entregue a imortalidade de Lola. Ao folhear vagarosamente as páginas daquele livro, o pai de Lola percebeu que sua filha até que não escrevia mal.

Flávio Sanso foi finalista do concurso Off Flip de contos/2015 e 2016. Recebeu o Prêmio Rubem Braga pelo 2º lugar no concurso de Crônicas promovido pelo SESC/DF. É autor do romance A base do iceberg. Suas crônicas são publicadas no site www.flaviosanso.com.