dois cangurus

Quando abri a porta do elevador e entrei no corredor comprido que leva à porta do apartamento, deparei-me com dois cangurus no patamar à beira da escada de serviços. Eles estavam na passagem que dá acesso ao único espaço para abrir a grade. Tentei agir naturalmente para não passar a ideia de que estava com medo.

Eu estava apavorado.

Parecia ser a mãe com seu filhote. O menor tinha a minha altura, o outro era pelo menos o tamanho do meu braço esticado para cima. A penugem de ambos era espessa, como um casaco de pele de raposa. Ambos tinham odores fortes, como animais selvagens que andam livres pelas savanas da Austrália.

Olá tudo bem?

Falei tentando soar o mais natural possível, como se encontrar cangurus na porta do apartamento fosse parte da minha rotina diária.

Eles continuaram me olhando sem piscar.

Vocês querem água?

Perguntei e passei ao lado deles de cabeça erguida para mostrar confiança. Eu estava a menos de meio metro deles e, por um breve momento, o tempo de enfiar e girar a chave no ferrolho da grade, eu dei as costas para os dois cangurus. Fechei os olhos esperando um murro na cabeça.

Meus parcos conhecimentos sobre cangurus dizem que eles são exímios boxeadores com seus curtos membros superiores e, por isso, sempre aparecem com luvas de boxe nos desenhos animados.

Abri a grade e entrei apressado. Pensei em trancar a porta de metal, mas achei indelicado como se os tivesse excluindo de minha convivência. Deixei-a aberta, virei-me e dei um sorriso aos cangurus que se mantinham impassíveis, sem tirarem os olhos de mim. Abri a segunda porta, a que dá acesso ao apartamento, e fui buscar uma caneca de água limpa.

Quando retornei, susto; eles haviam entrado no terraço que separa a porta do apartamento à grade de ferro. Estavam um ao lado do outro, fechando a passagem para a única saída do corredor.

Sorrindo, entreguei a cuia de água ao canguru mais alto. Ele a segurou com ambas as mãos — ou patas; não entendo bem de cangurus — e cheirou o conteúdo. Depois, molhou um dos dedos de unhas longas e a experimentou com a ponta de uma língua enorme e fina.

Só então a entregou ao canguru menor. Ele a bebeu de um só gole e devolveu ao canguru maior que esticou os braços curtos em minha direção. Hesitei um pouco nesse momento.

Olhei-a seriamente e estiquei apenas um braço para pegar na cuia vazia e perguntei:

Você quer mais?

Não esperei a resposta e virei-me em direção ao interior do apartamento. Quando voltei eles estavam agora mais próximos à porta, quase dentro do apartamento. Tive que entregar o recipiente com água limpa e clara sem sair da sala. A altura da porta era a altura do canguru mais alto.

O canguru-mãe, ou que eu julgava ser a mãe do canguru-bebê, esticou os braços curtos e repetiu os mesmos rituais de cheirar e experimentar um pouco da água. Então, ela bebeu de um só gole, fazendo bastante barulho na deglutição. Senti os pelos da minha nuca arrepiarem e os pelos dos braços se eriçarem num sobreaviso.

Ela deixou a tigela com restos de água cair ao chão, que se espatifou em pedaços grandes espalhados em pedaços brancos pela sala, rodopiando como moedas sobre a mesa. O barulho ecoou no corredor bem no momento em que ela me socou o rosto, arremessando-me desnorteado ao chão no meio da sala.

Rodei sobre meu corpo, bati a cabeça na base da mesa de centro e caí esticado junto ao sofá, com os braços moles sobre os cabelos molhados pela água da tigela sobre o piso. Ainda zonzo pelo impacto e deitado de costas para a entrada, ouvi quando a porta se fechou com violência e as pegadas das quatro enormes patas dos dois animais vibraram sobre a cerâmica fria.

Deitado de bruços, senti a presença dos animais em minhas costas. Outro soco me atingiu, desta vez por detrás, furando-me o pulmão. Tossi e apaguei, antes que as unhas do canguru-mãe cortassem a minha carne de cima abaixo do meu corpo.

Uma poça de líquido viscoso e quente molhou o chão ao meu redor. Senti-o entrar pelas orelhas, enquanto ouvia o ruído da carne ser rasgada e sentia as garras vasculhando o interior do meu corpo.

De um puxão levou o meu fígado e, mesmo sem ver, compreendi a cena do canguru maior passando o pedaço de carne sangrenta para o canguru menor. De alguma maneira aquilo me deixou feliz.

Arnaud Mattoso é jornalista e escritor pernambucano, da capital Recife. Tem dez livros publicados entre ficção literária, não ficção e poesia. Atualmente, mora na cidade de Olinda com esposa, cães, plantas e banho de mar semanal. Escreve diariamente.