amor calado

Na cama, acomodavam-se como se estivessem separados pela distância de bairros opostos numa metrópole. Com os anos, o colchão foi se alargando pela indiferença construída a dois corações vividos e acostumados. Não havia mais mistérios nem magia. Nem trocavam as palavras que dizemos antes de dormir. Achavam vago e desnecessário repetir o mesmo “boa noite” de sempre. Convenções, definitivamente, não eram para ambos.

Apesar disso, agiam de maneira robótica: quando ela apagava o abajur, ele já estava devidamente acomodado com seu pijama debaixo das cobertas e de olhos fechados. Quando era ele quem escurecia o quarto, ela já não mais se entretinha na costumeira leitura noturna. Ninguém avisava ninguém. Depois de décadas, já sabiam o momento exato de parar, tinham os movimentos decorados.

De manhãzinha, o senhor sério e carrancudo também seguia um ritual. Acordava, levantava preguiçosamente, apartava os cabelos antes de bocejar e ia ao banheiro. Diante do espelho, passava uma água no rosto, fazia a barba (quando preciso) e penteava os cabelos encharcados impecavelmente para trás antes de se vestir bem engomado. Depois, ia para a cozinha — o café da manhã dos dois fazia parte de sua rotina. Encarava como um mimo para que a mulher pudesse dormir até mais tarde e acordar “com o esmalte da beleza sempre reluzente”, dizia reservadamente.

Quando se sentavam à mesa, o aroma do café misturado ao do leite coloria o ambiente quieto. Às vezes, dava aflição: só se ouvia o som de colheradas lentas, goles cautelosos, mastigação e jornal sendo manuseado. Ela gostava de tirar a mesa e lavar a louça. “Fico pensando na vida, nas coisas que tenho pra fazer no dia”, explicava. Não tinham empregada doméstica, somente uma diarista que ia três vezes por semana e dava conta.

— O Carlos vem almoçar no sábado — avisou ao marido, enquanto colocava o telefone de volta ao gancho.

— U-hum! Precisa comprar alguma coisa? — perguntou ele sem desviar a atenção do que lia no jornal.

— Talvez salada. Nosso filho gosta de uma saladinha bem temperada.

Esse era o tipo de diálogo mais comum, e acontecia de vez em quando. Em geral, pairava um clima silencioso e discreto, quase como o de um mosteiro budista. Só havia barulho de poeira solta no ar. Não tinham animais de estimação nem ouviam música. Moravam ali há muitas décadas. Construíram a casa alguns anos após se casarem — na época, o único filho que tiveram ainda era de colo. Atravessaram tempos de estabilidade, viveram alegrias, apertos no coração, festas de Natal e réveillon animados e testemunharam seus corpos sendo transformados com a idade.

O companheirismo que cultivavam era genuíno e esquisito. Viviam como casados, mas conviviam feito educados estranhos que se respeitavam cordialmente. Sobre isso, era curioso, qualquer um podia transformar o humor de uma sorridente e espalhafatosa vizinha mais antiga apenas perguntando dos velhinhos. “Duvido que haja amor ali”, protestava inconformada. Esfregava os olhos com as duas mãos e completava: “Não sei como aguentam viver assim. Eu já teria enlouquecido. Afe! Mas é a vida deles. Enfim, não temos nada com isso”, desconversava sem perder a crítica.

Conforme as primaveras iam passando, o casal saía cada vez menos. Chegou um ponto em que só o necessário ou o urgente lhe fazia ir além da soleira. Se o portão da garagem abrisse, certamente era por causa de supermercado, médico, farmácia ou banco. O filho ou a nora os buscava quase religiosamente aos sábados para um dia juntos. Os dois netos já estavam crescidos e cursando a faculdade, mas sempre apareciam para o almoço nessas ocasiões. Gostavam bastante dos avós, embora se concordassem que ambos levavam uma vida parada e triste demais para a velhice. “É o momento, meus queridos. É o momento. Quando tiverem a nossa idade, irão querer sossego, um canto tranquilo e só”, argumentava ela com um doce olhar.

Estar com a família era sempre uma ocasião sonora. Ficavam comunicativos, exibiam expressões descontraídas e raras, davam risadas altas, tinham assuntos variados — com os demais, claro, pois, entre si, mal havia diálogo. “Tá na nossa hora, né? Vamos embora?”, era o que normalmente se conversavam, no máximo. Um dos netos se oferecia para levá-los, normalmente, às oito e pouco da noite. A vida acontecia como barulho de queda d’água…

Numa manhã de segunda-feira, depois de todo o ritual, ele teve de ter um pouco mais de paciência. Ela ainda não queria se levantar, embora já estivesse acordada. Inquieto, o senhor não resistiu e iniciou a leitura do jornal na sala. Foi então que ouviu seu nome ser chamado:

— Donato? Donato?

Sereno, ele deixou o jornal cuidadosamente na mesinha lateral (não queria perder a página em que estava), se levantou da poltrona predileta e foi até a porta do quarto:

— Sim, o que foi?

— O café está pronto?

— Está.

— Ah, então vou me levantar. Não tinha sentido o cheirinho de café quente. Achei que fosse mais cedo…

Instantes após ele ter ido dar uma reaquecida no leite, lá estava ela entrando na cozinha, vestida no roupão bege que adorava. Dava a impressão de que não havia se penteado direito, havia algo meio desconjuntado. Mas também, naquele horário, tudo é permitido… Veio caminhando a passos parcimoniosos, marcados pelo arrastar da sandália no piso frio.

Ele começou a preparar as xícaras dos dois.

— Que dia é hoje? — perguntou a senhorinha com um sorriso inesperado.

— Segunda, dia 11.

— O dia parece lindo lá fora. Devia ter acordado antes. Agora não me sinto bem.

— Por que diz isso? — ele mantinha-se concentrado nas colheradas de açúcar que despejava no café dela.

— Não sei… Me sinto meio sem energia, sabe?

A conversa parou por ali. Assim que adoçou a xícara da companheira, lhe alcançou um pedaço de pão para passar manteiga. Fazia tudo com extrema calma e dedicação. Percebendo-se observado pela companheira, porém, esquivou-se:

— Seu café vai esfriar, hein!

Indiferente, ela esticou a mão direita e a colocou sobre o pulso do marido. Com o dedão, fez uma carícia suave e falou terna e levemente emocionada:

— Dôna, foram anos incríveis os nossos, né?

Ele só puxou um sorrisinho tímido no canto da boca sem olhar diretamente para ela. Não disse uma só palavra, mas aquilo bastava como carinho correspondido. A senhorinha, então, deu o primeiro gole: “Hum, está bom!” Ao devolver a xícara no pires, a mão trêmula quase derrubou o líquido quente na toalha limpa. Parecia ter ficado tensa com alguma coisa.

O barulho do tilintar da louça por causa da tremedeira chamou a atenção dele:

— O que você tem?

Cabisbaixa, ela não buscou seus olhos. Tinha dificuldade para falar. O ralo ar nos pulmões lhe testava a resistência. Tossiu de leve. Largou a xícara com certa dificuldade, apertou o peito e, lentamente, acomodou a testa na mesa. Continuava tremendo bastante. Assustado, ele insistiu:

— Annalu, o que você tem? Fala comigo!

Sem sucesso, tentou convencê-la a voltar para o quarto. Queria que deitasse confortavelmente na cama ainda quente e desfeita. Entretanto, não pôde com o peso — seus músculos já não eram mais os mesmos. Preocupado, correu a telefonar para o filho e para um amigo médico. Enquanto esperava o pessoal chegar, ficou ao lado da mulher na cozinha, abraçando e tentando entender o que se passava. Mas não deu tempo. Ela partiu em silêncio, segura e protegida pelos braços do marido. Tinha 78 anos, três a menos que ele.

[…]

A casa permaneceu trancada depois do enterro. Ele foi passar um tempo com o filho, a nora e os netos. Não conseguiria continuar no ambiente que iria lembrá-lo constantemente da perda recente. Pensaram em vender o imóvel e lhe comprar um apartamento. O filho, no entanto, preferia que ele vivesse em sua casa, junto, mas isso estava fora de cogitação.

— Não, de jeito nenhum! Vocês têm a sua vida e eu preciso do meu cantinho (recusava-se).

Combinou-se, então, que ele continuaria hospedado por lá até que tudo se resolvesse e encontrasse um novo lar. Todos sabiam que esse processo poderia levar até um ano, talvez. Contudo, a temporada foi bem mais breve. Em cerca de três meses, o desgosto da solidão imposta o levara embora. Morreu triste e sem avisar, enquanto dormia um sono lúgubre. Em suas derradeiras semanas, ocupava boa parte do tempo a não abrir a boca para nada.

Foi um golpe e tanto para a família, que viu o senhor se entregar sem conseguir fazer nada. O filho parecia inconformado, mas respeitava a escolha involuntária do pai. Entendia que é a vida que desiste do corpo e não o contrário. Contra o destino não há remédio. O silêncio, finalmente, voltava a unir o casal.

Henrique Inglez de Souza é jornalista e crítico musical desde 2001, também se dedica ao escrever literário. Em 2014, saiu seu primeiro livro, Pequeno Cemitério de Insetos (contos), e no final de 2016, o segundo, Poesia de Bolso e Alma (poesia, Chiado Editora).