pequeno fragmento cotidiano

A carta estava guardada na segunda gaveta do criado-mudo, ainda fechada, enrugada de tanta cola branca depositada. Não tinha pressa em lê-la. Chovia muito no bairro de Virgem Santa. Ouvir as gotas insistentes caindo na calha era um alento, depois de tantos dias conturbados. Depois de tantos dias dormindo mal e comendo às pressas. Chegara de viagem na noite anterior. Sete dias fora de casa e uma preguiça imensa de colocar as coisas em ordem. Lavar as roupas sujas, passar uma vassoura na casa, retirar as teias de aranha, passar outras tantas roupas. A comida havia sido comprada. Mas o café foi feito na hora e rescendia seu aroma por todos os cantos da casa com janelas fechadas. Chuva sem previsão de término. Melhor assim. No ônibus, já havia pensado tanto na vida que as lágrimas, uma ou duas, desceram. Viajar na madrugada é bom pra isso. Ninguém vê seu rosto, apesar de você ser somente mais um entre tantos.

Metade das tarefas estava feita. Ligou a televisão só para ter companhia, porque o barulho na calha, das gotas do temporal, ficaria como embalo para o sono. Tomou café amargo com bolo de banana e sentiu uma sensação reconfortante. Mais tarefas pela frente, mas o dia parecia agora estar mais macio. Lembrou-se da carta. Chegara em seus dias de ausência. Quase molhou na varanda da casa em chuvas anteriores. Mas estava sã e salva e fechada com muita cola branca. O conteúdo parecia ser previsível. Por isso, ainda estava lacrada. Até a última gota de chuva cair na calha, até varrer o último cômodo da casa, até passar a última peça de roupa amarrotada.

Quando a madrugada bateu no relógio antigo, esticou o braço em meio à insônia e pegou o envelope na segunda gaveta do criado-mudo. Cheiro de cola branca e nenhuma sombra do que podia estar escrito aparecendo do lado de fora. Não queria romper o envelope. Sentiu que não queria ler a carta. Daí, seu abandono na gaveta. A chuva havia cessado, contrariando previsões. Um pequeno rastro de lua começava a aparecer pelo quarto de luzes apagadas. Silêncio absoluto no Virgem Santa. Na penumbra, decidiu rasgar o envelope. Desdobrou o papel escrito com caneta esferográfica. Não se levantou para acender o interruptor. No rastro da lua, tentou lê-la. Havia data, local e saudação. Uma introdução morna sobre a vida. Um miolo que não revelava muita coisa. Uma despedida morna. A assinatura trêmula de sempre. Dobrou de volta o papel, inserindo-o no invólucro. Uma carta rompida nunca volta a seu estado original. Lembrou-se de como chorou no ônibus de volta para casa. Há cartas que devem permanecer no silêncio, assim como todo o bairro de Virgem Santa.

Munique Duarte nasceu e vive em Santos Dumont-MG. É jornalista sindical, formada pela UFJF. Tem textos publicados em sites, revistas e jornais literários. Lançou Espelho Oxidado (contos) em 2014 e O salto do guepardo (romance) em 2015. Bloga em Textos Imperdoáveis.