comando para morrer

Quando servi no exército, isso foi no finalzinho da década de 1990, tive um sargento que havia participado da guerra no Iraque, a primeira, em 1991, do Bush pai. Um gringo vinha recrutando mercenários pra lutar contra os árabes no Golfo Pérsico, era pagamento adiantado, e ele, como muitos outros brasileiros, aceitou de bate-pronto e foi matar árabes no Golfo Pérsico. É mais barato pegar militar na América do Sul. Em 2003, depois das torres gêmeas, o Bush filho invadiu o Iraque novamente e os gringos voltaram aqui. Fui alocado em um pelotão de vanguarda, aquele que chegava pra arrebentar com tudo. Tinha uns canadenses com a gente. Um pessoal psicopata que fugiu do tédio e do frio pra matar. E a gente fugindo da pobreza, coisa de subdesenvolvido. Enquanto durasse a briga de família Bush-Hussein, tínhamos garantida a matança — com soldo extra diretamente correspondente ao número de árabes que derrubávamos. O nosso coronel era um franco-argelino cinquentão tão anacrônico que parecia ter saído direto das trincheiras da Primeira Grande Guerra pra confusão do deserto babilônico. Foi com ele que aprendi a matar e a sobreviver. Os pelotões ianques pareciam ter mais pavor da gente do que dos civis com seus cintos-bombas. Um bando de frescos com quarenta quilos de mortíferos brinquedos de alta tecnologia no lombo. Pra gente bastava uma metralhadora e uma faca, como o Rambo. A gente não precisava respeitar merda nenhuma de convenção. Um exército privado não está sujeito à justiça militar. Não está sujeito a porra nenhuma. A gente não era ianque, a gente era um bando de sul-americano fodido tentando ganhar uma grana. Nas forças armadas brasileiras nunca tive oportunidade de matar. Depois de um tempo, toma-se gosto. Soube que um colega de pelotão, boliviano, possuído pelo espírito do coronel Kurtz, aquele doido varrido que o Marlon Brando representou no filme Apocalipse Now, passou fogo sozinho em uma aldeia no meio do nada, depois sumiu uma semana no deserto. Uma noite apareceu com a maior cara lavada na base e no dia seguinte já estava com seu pelotão aterrorizando a cidade de Samarra. Foi lá também que outro colega, brasileiro, se escondeu na mesquita de Al-Askari, depois que o seu pelotão inteiro foi pelos ares. Quase cinquenta homens mortos por uma criança-bomba. O filho da puta sobreviveu mesmo com uma quantidade absurda de estilhaços cravados no abdômen. Depois contou que um árabe raquítico, mestre sufi chamado Hallaj, cuidou dele, mas isso deve ter sido alucinação. Eu tive sorte. Não morri. Não perdi membro algum. Matei e me diverti bastante. Ganhei uma boa grana. Depois de quinze meses, voltei pro Brasil. E agora estou aqui, sozinho, sentado no sofá, escrevendo este bilhete pra ninguém, antes de pegar minha Colt M1911 A1 e estourar meus miolos. Não é isso que todos os suicidas fazem? Escrevem bilhetes?

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.