meu irmão

Aos dezoito anos de idade, meu irmão se apaixonou por uma mulher mais velha que ele, dona de uma casa suspeita a duas ruas de onde morávamos.

Minha mãe caiu em desespero e se pôs a rezar, a fazer novenas, a se valer de todos os santos. Meu pai fez o que tinha que fazer, o que lhe cabia fazer como pai e como homem: arrastou o filho para um canto e, com palavras duras, sem aresta, sem nada, tentou fazê-lo enxergar o abismo do qual estava se avizinhando, a grande merda (foram estas, na verdade, suas palavras) em que estava se metendo ao se apaixonar por uma mulher daquela espécie.

Todas essas palavras cobertas de lucidez e aflição, todas as rezas e súplicas dirigidas aos santos, tudo, tudo caiu entre pedras e não vingou. Meu irmão estava surdo a todos os conselhos. Não enxergava mais nada, por mais que a coisa pulsasse perigosamente diante dos olhos dele.

— Vocês querem que eu me mate, é isso? — gemeu acuado contra a parede.

Essas palavras do meu irmão, fendidas de dor e angústia, só iriam fazer sentido para nós tempos depois. Naquele momento, empenhados em demovê-lo daquela louca paixão, ninguém viu nelas uma porta entreaberta à borda do abismo. Caberia à sua amante, como muitos vaticinaram, escancará-la num gesto do mais completo desamor.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.
Twitter: @Gerassanto