imperdível

Você não sente dor, não sente vergonha, só um vazio que vai crescendo, crescendo até te fazer acreditar que existir e não existir dá no mesmo. Eles continuam fazendo a coisa toda e você não sabe por que, mas eles continuam fazendo, nunca desistem. Sabe que não estão mentindo, mas ainda assim não entende a necessidade. Você tem mesmo tetinhas de mulherzinha, como eles dizem, umas tetinhas estreitas e flácidas que empapam a camisa toda vez na aula de educação física. E você raramente enxerga seu pinto. Não que seja tão pequeno, mas é que uma imensa montanha de banha se intromete entre ele e os olhos. Tudo isso é real, mas por que precisam baixar suas calças até os joelhos na hora do intervalo, na frente de todo mundo? Por que roubam sua comida e jogam um pro outro, esperando que você se canse? Você não sabe. Tudo o que sabe agora é que os caras legais da TV não aguentariam essa merda. O Homem-Aranha, por mais otário que fosse, não aguentaria essa merda. Você sabe o que seu pai te diz, que só uma bichinha cagona suporta esse tipo de coisa de bico fechado. Então você vai lá e, quando o Robson vira a cara, mira um soco bem no meio daquele nariz pontudo e escuta ele fazendo crek, como se alguma coisa tivesse se partido ao meio. Você vê ele caído no chão imundo, pisado por centenas de tênis. Vê o Robson levar a mão ao rosto, vê sangue, vê ele se erguer com dificuldade, virar pra você, ainda sem acreditar, o nariz pingando sangue. Todo mundo em volta para, o mundo inteiro para pra ver, aquele momento raro em que algo impossível acontece, algo com que ninguém tinha contado. Você se sente eufórico, você ganhou, virou o jogo, derrubou o obstáculo. As coisas não vão ser mais as mesmas. Mas parece que alguém discorda, porque o Robson já está de pé outra vez e te olha com tanto ódio que você tem vontade de entrar pra dentro de si mesmo, esconder o rosto no meio daquelas tetas pegajosas que tanto odeia e nunca mais sair. Olha o punho dele se levantando, muito lento, como se você assistisse a um filme, vê os braços contraídos, os músculos tensos. Não dá pra fazer mais nada e isso te dá até um certo alívio, porque agora é só ficar quieto ali, aguentar o que vier, o que inevitavelmente vai vir. Finalmente você sabe alguma coisa. Sabe que agora ele te acerta em todos os lugares, chuta sua barriga até você chorar, vomitar e pedir arrego, e continua chutando muito tempo depois disso. E sabe que todos os amigos dele, percebendo que o jogo virou, ficam em volta rindo e apontando pra que você não se esqueça nunca do tamanho da humilhação que te fizeram sofrer. Você sabe que agora é a sua hora, igual aquela mulher da propaganda de viagens vive falando, é o momento mágico de criar lembranças pra toda a vida.

Leonardo Neiva, jornalista de meia tigela, tenta escrever sobre as saudades que sente de tudo aquilo de que nunca ouviu falar. Medium: @leomneiva2.