águia

E assim o jardim secou,
a vida parou de oferecer-lhe suas flores de ansiedade
e a náusea parou de visitar seus dias ensolarados de agonia.

Imediatamente nasceu um pé de manjericão com cheiro de vida achada,
e sob o céu de Paris choveu toda a água do mundo
em seus olhos de primeira vez.

Não havia lugar senão o guardado na complexidade das (re)conexões
que revelavam o elegante descansar das pernas
como que esculpidas por Rodin.

E dentro delas,
a pura alma do cuidado
alinhavado com uma pontinha de metal delicado
que só o íntimo descobrir poderia desvendar.

Suas mãos desnudavam a solitude da imaginação,
como que só em fábrica de gente
que nasce sem fecundar.

Ah, as lembranças como as pontas de cigarro para o vício;
como carne sem osso
para quebrar o gelo da ausência.

Vanessa Dourado é escritora e feminista latino-americana. É autora do livro Palavras Ressentidas e colaboradora na Revista Berro, vive em Buenos Aires.