tonho

Entardece na roça
de modo diferente
Boitempo, Carlos Drummond de Andrade

A imagem de Tonho correndo entre árvores, bois urrando, céu vazio, bala cortando estaca, folha, tronco, ele não era um vaqueiro qualquer, tinha corte de homem, disciplina, agilidade, o fogo da noite anterior deixou nele, o patrão, um rastro de remorso e desordem, tantos relatos a divergir, tanto compromisso e agora o acontecimento, comprou uma latinha de cerveja, que sorveu em dois goles, pensou na mulher, nas filhas, a mais velha estudando Direito, o peito desarranjado, Damião inventando coreografias para se livrar do fogo dos jagunços, os cachorros correndo desordenado, a chuva rala, o tempo fechado, a lanterna com a bateria fraca não permitiam a Tonho visualizar nada direito, tinha prometido a filha mais nova apanhá-la no colégio, chegara há pouco de São Paulo, tinha ido fazer um curso de inseminação artificial, os eventos se davam numa sincronia confusa, teve que parar o carro para que os bois corressem desatinados dentro de sua cabeça, o barulho, do vento, das folhas, o cachorro Ladino caindo num baque seco, a mulher berrando o nome do marido, as rezes socando-se no fundo do curral, Maria tinha pedido a Tonho que não saísse pro terreiro àquela hora, não tinha nada acontecendo, que ele dormisse, e antes tinha implorado a ele que não saísse de Cabeceiras, tudo deles estava lá, onde tinham construído a vida, mas não, homem quando endoida não ouve nem mulher nem Deus, bater cabeça no mundo, perder-se atrás de nada, procurar o que não tinha perdido, o patrão pediu que ele não se afastasse muito da casa se percebesse alguma coisa à noite, mas a teimosia de Tonho era grande, eles, mandantes e jagunços, queriam assustar, matar se houvesse reação, fazer todo mundo fugir dali, vender tudo barato, pensava no negócio enorme, inseminação não era para todo mundo, sentia orgulho do conhecimento novo, Tonho saía com o trintaeoitozinho na mão como se pudesse governar a situação, eliminar um por um, o patrão vai ver que quem está aqui não é bicho frouxo, eu vou fatiar esses bestas igual quem fatia um porco, e emitia grunhidos, firme, certo do que fazia, quando o sovo de uma flaubert fê-lo tombar, o senhor vê, Maria disse, agora eu perder ele assim, veio aquela vontade danada de chorar mas teve que segurar o pranto na frente da mulher, andou lá pros fundos, pra trás do paiol, deixou que as lágrimas rolassem, a mulher, os dois meninos, Cabeceiras lá e eles aqui, e o corpo do vaqueiro guardado dentro da casa, com mais de um dia completo da morte, a filha já tinha saído do colégio, é assim mesmo, nunca dá para estar com todos nem em todos os lugares, sepultar Tonho sem parecer médico, sem reza, sem cortejo, estava ficando muito difícil administrar a riqueza, tudo se resumia a perseguição, lucro, o pensamento dá uma limpada, ele liga o som do carro, consegue ficar um pouco sem pensar, se enterrasse Tonho ali na fazenda mesmo seria bem mais simples, chega num posto de gasolina, encosta a cabeça no banco, toda a narrativa feita por Maria se desenrola ainda mais desordenada nele, em seu corpo, formigando em seus braços, andando, saltando no sangue, desaguando numa dor, num desconforto, a ideia transformada numa luta, Damião esconde e aparece entre árvores, rola no meio do pasto, um barulho descomunal de aves, o rio parecendo que ia estourar, os bois arrebentam uma parte frágil do curral, Maria de súbito tinha adquirido uma voz nova, a morte de Tonho dava a ela outro corpo, não era mais a mulher de Tonho, mas ela, Maria, que falava agora, tinha vindo de Formoso, cuidadosa com as palavras, com Tonho, o polvilho, o açúcar, era ela quem fazia, o meninos bonitinhos, saudáveis, o desatino do vaqueiro, dos cachorros mandados, corriam em círculo, passavam atrás do curral, do mangueiro, parecia que era um e parecia que eram quinhentos, atirando sem rumo, Tonho correndo como um danado, cego, achando que iria dar conta, em Cabeceiras era dono de uns seis alqueires, umas novilhas, a mãe morava ali perto, os meninos estudavam, não, correr atrás do mundo, Damião garantia ter matado dois, Damião besta, sem saber da verdade toda, de verdade nenhuma, seguia os passos do companheiro, perdia-se dele, repetia suas palavras na frente do patrão, queria ser bom e servil o tanto que o outro era, era preciso conversar com Damião, andar com ele na fazenda, um, ele tinha acertado perto do rio, do lado de uma cocheira, a mulher ligou, oi, amor, tá tudo bem? ‘ce vai dormir na fazenda? vê se não demora hoje, beijo, outro, ele acertou entre o curral e a casa, inferno, nunca foi de sentir culpa, agora estava tomado por ela, culpa de ter dinheiro, de ter ido atrás do vaqueiro em Cabeceiras, com tantos por perto, ali mesmo no Paranã, andava com Damião dentro do círculo descrito por Maria, esqueceu de buscar a filha no colégio, queria entender direito, mas o círculo era muito maior, incluía muita coisa, muita gente, coisas que nem ele com o curso que tinha feito podia compreender, o esperma de um boi sem termo circulando no útero do mundo, o círculo, entre o curral e a casa, passaram perto de onde o cachorro caiu, um dos meninos fez ali mesmo a cova de Ladino, Tonho tinha nascido em Ceres, onde aprendeu a atirar matando passarinho, tinha sido capataz em Carinhanha, mas nunca matou ninguém, mudou para Cabeceiras, conheceu Maria, o patrão andava com Damião, uma das filhas liga, pai, vem logo, ‘tá, filha, eu tô saindo, beijo, andaram mais um pouco, um pouco mais, Damião andou para a direita, as três filhas, a inseminação, o caseiro apontou o lugar, o capim amassado e manchado de sangue, Maria era forte, não chorou mais, nem quando o corpo do esposo desceu à terra aberta, os meninos jogaram um pouquinho de terra sobre o caixão, o mundo ficou muito pesado quando Damião mostrou o lugar, aqui ó, foi aqui, o lugar em que viu o jagunço cair, Damião bobo, mundo sem taramela, o mesmo lugar, Damião nunca iria deixar de ser ninguém, o mesmo lugar em que tinham colhido o corpo de Tonho.

Vicente de Paulo Siqueira nasceu em Caratinga-MG e mora em Brasília desde 1969. É autor de O Tao da Coisa, poesia, Casa da Anta Editora; de Lâmina, contos, LGE; de Abecedário, poesia, LGE; de Joaquim, 1954, contos, Kiron Editora.