aos oito anos

sei bem quando aconteceu, de repente, no dia em que minha filha de oito anos menstruou na escola. a diretora me telefonou e eu fui buscá-la. nina assustada no banco do carona e eu explicando que era tudo normal enquanto pensava em como era cedo ainda e a olhava rapidamente e sentia uma tristeza tão grande, um cansaço. estávamos com o automóvel parado no semáforo, eu me lembrei do meu pai, meu pai amoroso que tanto mimou a mim e minhas duas irmãs mais novas.

[e nina sem pai, mas isto nunca lamentei, augusto era traste, saiu da minha vida antes de perceber a gravidez. no entanto eu lamentava o vazio da figura amorosa que tudo faz, tudo ama e que de todos protege, isto eu lamentava por nina.]

papai e eu estávamos também em um automóvel, sua caravan 1979. ele me colocou em seu colo para que eu pudesse brincar de dirigir. eu tinha oito anos, como nina agora. logo a alegria deu lugar ao estranhamento. senti o pênis duro de papai sob o short roçando meu bumbum. eu não sabia o que aquilo significava. as buzinas me acordaram, o semáforo estava verde, meus olhos queimavam, nina nada entendia, pequenina, assustada.

então eu morri naquele dia e em todos os dias que vieram depois. papai, o que o senhor fez? eu me lembrei dos abusos subsequentes, as idas ao quartinho dos fundos de casa, o bafo terrível de álcool e sexo, os anos e o sangue, sobretudo o cheiro do sangue.

[eu me lembrei de tudo, papai.]

o meu medo de que ele também fizesse aquelas coisas feias com minhas irmãs. eu vigiava as duas, eu defenderia minhas irmãs. defendi, na verdade, entregando calada meu corpo aos desejos humanos do meu pai.

[esta é a hora de falar de mamãe. ela era fraca e servil. se desconfiasse talvez arrancasse minha pele, e certamente continuaria com seu homem. a banalidade de tantos lares.]

papai morreu em um acidente de carro quando eu tinha quinze anos. meu presente torto de debutante, ter me livrado daquele homem. dois mil quinhentos e cinquenta e oito dias, como foi que eu esqueci? mamãe morreu três anos depois. tia deolinda cuidou das minhas irmãs, eu fui fazer o normal em um internato. me formei, namorei, casei, dei aula, larguei o traste, tive nina.

nina, minha filhinha, mamãe ama você acima de tudo. deita em meu colo, eu vou pentear seus cabelos. faz um dia lindo. os passarinhos nos galhos das árvores sempre reconhecem um dia lindo como este. olá, doutor roberto, sim, passo bem. estou arrumando os cabelos de nina. é a minha filhinha. quando ela fizer oito anos vamos fazer uma festa e vou convidá-lo. estou com saudades das minhas irmãs, doutor roberto. quando elas vêm me visitar?

Amanda Sorrentino é carioca, formada em cinema e editora do gueto. Contato: ama.sorrentino@gmail.com