um instrumento de signos entre nós: tocar ‘real e de viés’

E onde não queres nada, nada falta.
Caetano Veloso

Como entrar em um livro cuja capa já oferece um obstáculo: é uma porta cerrada? Cujo poema inicial, ‘iniciação’, já anuncia nos primeiros versos: “não me leiam / me esqueçam / se possível nem me conheçam”? Eu poderia começar dizendo que são metáforas da incomunicabilidade da linguagem, da poesia, mas penso que há outras vias muito mais vivas e gozosas para brechar.

A porta é porosa, como a pele — que não penetramos, mas acariciamos, deslizamos — cheia de estrias, de frestas, o sedutor buraco da fechadura: linhas de fuga: real e de viés. Sim, antes de seguir, há que saber isso: a escrita não é dada nem “dável“. Isso não quer dizer que não há ponto comum, não há comunidade na escrita, isso quer dizer que esse ponto comum não é concedido de antemão. Esse ponto comum é o que surge do encontro dos corpos (escrita e leitura e seus inumeráveis outros corpos). Em outras palavras, o ponto comum da escrita, ou ainda, o seu sentido, não está aí, não está aí para ser descoberto; o ponto comum da escrita são pontuações, pulsações, ritmos que se cria ao tocarmos um fonema, uma rima, um timbre atonal que nos desorienta e nos situa na linde entre o sentido e o sem sentido da linguagem.

Colo meu olho esquerdo numa das frestas: “mas, se eu soubesse / o que saberia?” Tudo em mim vibra, as sílabas sabem mais do que as palavras, diz-me a estrofe, elas são sopros, sons inomináveis, que não contêm uma certeza nem uma verdade, são intensidades que dançam e fazem dançar. Eu ouço ao longe a sonância de um trompete compondo hiâncias no ar: a arquitetura de uma queda. “e se eu não cair / que faço de mim / em pé / entre destroço?” E você aí dentro, quem é? Um homem erguido diante da própria ruína? As retinas alteradas pelas ondulações do desejo. Vejo: afino o olhar. E a distância: toco.

Um instrumento de madeira, de papiro, de signos entre nós: limite e transposição, interior e exterior: fronteira contaminada: textura compartilhada: a composição de um lugar esfugente. Ou escrever não é soltar pássaros de plumas pretas num céu em tormentas? Chuva nas páginas, borrão, uma profecia escura se revela sem revelar nada, só mais um buraco negro onde eu me afundo. “e se eu continuasse / dizendo coisas sem sentido / você diria: entre?”. Seria bonito ver a porta se abrindo, ver que a expansão da tinta, dos signos, não produz mais do que uma forma borrosa, indefinível. Mas a porta está cerrada, e desde o buraco da fechadura, eu só vejo pegadas de dedos, tateamento, vestígio. O homem, dentro, “excreve” ocos na porta, entre’visões, vieses, aberturas rizomáticas que forçam o olhar a vaguear como “uma abelha perdida rompe o crepúsculo zunindo até a exaustão”. A mulher, fora, aprende que toda entrada é também uma saída e deriva a saia e a mirada na materialidade onírica das palavras:

“[…] mas
ao invés
de um discurso
dizia: ah…
e voltava ao casulo oco de cadarços em grandes laços […]”

Carla Carbatti é mineira, das montanhas, do mar, nômade. Doutoranda em Estudos da Literatura e da Cultura pela Universidade de Santiago de Compostela. Poeta com todos os átomos, possui moléculas poéticas ligadas à Subversa, Zunái, Germina, Alagunas, Mallarmargens, Diversos Afins, Escritoras Suicidas, Contratiempo, etc., à antologia RelevO 5 anos, ao Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix& super-heróis de gibi e agrupadas no livro autoral Na Cadência do Caos, editado pela Urutau.

amor

dizem que o amor isso
o amor aquilo…
mas já é sexta-feira?
Já dá calafrio?
vai ter cerveja?

e se não for…
e se não for amor?
se for
salto alto
quadrúpede de pelúcia
e coração de estudante?

entupidos
de
álcool

imersos nesse aquário
esperando
o grande evento

sequer suspeitam
que os cavalos de Napaleão
não lutavam pela França

| OLIVEIRA, Leandro. Real e de viés. Juíz de Fora, Minas Gerais: Bartlebee, 2013. 117 p. |