o anjo excedente

continuação para o conto Réquiem por um fugitivo,
de Caio Fernando Abreu

agora, sempre que entro no quarto que foi de minha mãe até o dia em que ela partiu para a outra terra, para a outra parte desse mundo, tão existível e desconhecida tanto por mim quanto por você, sou levado a caminhar por toda a área do pequeno e misterioso cômodo. todo dia, antes de abrir a porta, um pensamento atravessa minha mente e é como se, no fundo de mim, eu ainda acreditasse que descerrando aquela porta rústica a encontraria deitada em sua cama, vestida com aqueles olhos de preguiça típicos de quem está desadormecendo e que, aos poucos, a veria espreguiçar-se belissimamente, como que pressentindo ali a minha presença. por isso, antes mesmo de pôr as mãos na fechadura, algo estranhamente sublime me acontecia e, de súbito, uma força leve cobria meus dedos e punhos, fazendo-me lançar sobre o gélido ferro da porta mãos que não eram as minhas, de tão exageradamente suaves e delicadas. o quarto ditosamente é o mesmo. foi de minha vontade deixá-lo do mesmo modo como minha mãe o deixou, antes de partir em definitivo. a cama permanece no centro, majestosa, com um ar de trono peculiar, penso, a uma rainha que é imortal. o criado-mudo encostado na parede, ao lado direito da cama, com sua parte marmórea brilhando de tão encerada. o abajur com a lâmpada azulada que ela usava porque tinha receio da escuridão total do quarto. o chapeleiro onde pendurava suas bolsas e cintos, a pequena estante negra, sua caixinha de música, suas poucas joias e alguns penduricalhos. tudo guardado no encanto do amor, como se o ato de guardar os seus objetos far-me-ia estar também a guardar para sempre a sua imagem em mim. deus sabe como dói o peito quando me invisto naquele setor da casa, como me acerco de uma falta de ar que me comprime o corpo. só não há mais o velho guarda-roupa, mas isso não tive como evitar. existe uma forma de lembrança que é aterradora. hoje, depois de revê-lo partir junto a minha mãe, no filme de nossas existências, ruflando suas asas e atirando-se sem medo ao mundo imenso dos mundos, através da janela desse quarto, eu me pergunto por que razão não tive forças na voz para lhe dizer alguma coisa, nas vezes que o vi, alguma palavra que fosse ao menos amiga e carinhosa, e que lhe confortasse um pouco ou lhe dissesse que eu me sentia bem sabendo que estava ali, dentro do móvel preferido de minha mãe, protegendo-a contra qualquer mal possível, protegendo-me também, mesmo você não suspeitando disso, apenas com a sua forte presença. quando penso que perdi todo esse tempo, que não fui capaz de abraçá-lo sequer uma vez, que não arranquei para fora o meu orgulho hipócrita para dizer do meu amor por você, vejo o quão devo ter sido um filho ruim, um filho indigno, sem amor no coração. eu que passei todos aqueles anos desconfiando de você, sem saber quem realmente era, o que pretendia, o porquê de viver naquele canto tão escondido da vida, completamente retorcido, amordaçado por um ar preso, morando dentro do guarda-roupa da minha mãe, despedaçando-se aos poucos. demorei muito para acreditar na ideia de que minha mãe era o fator dissonante de toda essa história. ela havia mentido para mim e eu fui caindo em sua teia sem maldade, aprisionado como um inseto perdido na selva das coisas. mas ela fez tudo ser desse jeito porque, antes de tudo, ela me amava como a um filho legítimo, que tinha dentro de si o mesmo sangue que nela corria. por isso não guardo mais mágoa, o tempo nos previne de muitas judiações e por vezes apaga o que é para se ter piedade. e aquele meu ar de mediocridade diante de mim mesmo, do poder revelador de minha face, assim como a ausência de um algo que me avisasse acerca da real direção dos ventos, para onde iríamos todos, aonde chegaríamos, o que encontraríamos no final do corredor da vida ou em uma de suas inúmeras curvas, aquilo tudo me fazia pensar duas vezes, antes de fitar a verdade que existia dentro daquele seu olhar. você soube nos auxiliar sem mexer suas asas. a vida parecia mais limpa quando eu saboreava um pouco de sua realidade. era como se uma criança, carregada pelo pai numa estação repleta de pessoas, tomasse o rumo certo-incerto de sua liberdade e, a partir de uma fuga, começasse a se descobrir, desabrochar-se como faz uma luz ao se acender em câmera lenta. eu retrago esses fatos à tona porque hoje é, talvez, o dia mais importante da minha vida. sozinho nessa casa, ao longo de dias na companhia da tristeza e do sofrimento, coisas fantásticas me aconteceram. paulatinamente, meu corpo sofreria alterações profundas. sem dor sentir, duas pequenas asas nuas de pena brotariam em minhas costas. não fora derramado sangue, nem feito quaisquer intervenções cirúrgicas para tal. simplesmente um par de asas nascera em mim e, ao transcorrer das horas, elas ficariam preenchidas com alvas penas, essencialmente macias e confortáveis. intrigantemente, diferente do que poderia ter ocorrido com outra pessoa, aceitei a mutação como um adolescente aceita o engrossar de sua voz, no início da puberdade. confesso que, por diversas vezes, esbarrei o meu novo órgão na estreita porta da cozinha, ainda desacostumado com o volume, e também no box do banheiro, quando, distraidamente, deixava o sabonete escorregar de minhas mãos e dava os volteios necessários para apanhá-lo novamente, mas nada que me fizesse sentir ojeriza por estar a carregar em meu dorso um par de asas angelicais. desde aquele primeiro dia de mutação, percebi que você era o meu pai. sim, eu sou o teu filho, posso exclamar, um legítimo anjo como você também o é. e hoje, pai, hoje é o dia que voarei pela primeira vez. eu decidi tudo, é o meu mais íntimo desejo. vou sair pela mesma janela que o senhor saiu. vou alcançar os galhos mais altos da nossa árvore, e com toda a força que tenho te encontrar. sou a criança liberta de qualquer amarra, que jamais se esquece de pagar pelas imateriais fortunas adquiridas. sou o filho que viu o pai sofrer e nada fez por não saber, simplesmente. hoje habitarei o mundo por sua causa. e vai ser agora…

Germano Xavier é mestre em Letras pela Universidade de Pernambuco – UPE, jornalista profissional (DRT BA 3647) e um dos editores do Jornal de Literatura O Equador das Coisas (ISSN 2357 8025). Seu livro de contos Sombras adentro foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura (2016). Escreve há 9 anos o blog O Equador das Coisas.