dois corpos

Disse-lhe, a voz sumindo no vão seco da garganta:

— Não posso encostar nem o dedo em você.

Ela fez que não ouviu — ou ouviu, mas ignorou. Aproximou-se mais de mim. Estava tão próxima agora que o seu cheiro batia denso e nítido nas minhas narinas. Eu senti o coração disparar, tomado pela emoção e pelo desejo.

— Não posso. Se eu encostar a mão em você, um tanto assim, tudo desanda. Eu perco o rumo de casa, já não vou mais saber quem sou. Entende por que não posso?

Ela quase roçou o corpo no meu, e seu cheiro adocicado, mistura de ervas e danação, me envolveu num transe sem volta.

Foi tudo tão rápido, tão fora do meu controle: ela pegou a minha mão e a colocou sobre um dos seios — eu sempre quis aquilo, desde o princípio dos tempos!

— Você não devia ter feito isso, meu anjo, foi tudo o que consegui dizer. Depois, foi pura consumação: brasa, carvão e cinza.

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.
Twitter: @Gerassanto